sexta-feira, setembro 21, 2012

Limite da dor

Dei por mim hoje a refletir sobre a vida, as alegrias e as dores de vivê-la. 
Não considero a minha vida nada fácil, mas apregoá-la como difícil será um insulto para muitas outras.

O que se faz quando se perde um amor de uma vida inteira, ou um filho...gente que se ama ? A que nos agarramos para nos erguermos?   Como damos "a volta" ? Como se suporta tanta dor ?

Hoje, um abraço especial a uma amiga que precisa de muita força para  voltar a erguer-se. Gostava de poder ter a sabedoria para ensiná-la a ultrapassar....mas quem tem? No entanto desejo muito que consiga, porque ela é realmente especial.


quarta-feira, setembro 19, 2012

Conversas do JP que deixarão saudades...

Nunca tive as alegrias das primeiras conversas, a viva voz, com o meu JP, tal como nunca cheguei a ter muitas outras emoções normais. Algumas tenho-as, agora, com o Rafael. 
Mas como tudo tem sempre uma compensação. O meu JP utiliza um caderno de comunicação e diz o que quer. Conversa com o Pai em programas tipo MSN (e às vezes comigo) e está aqui um excerto maravilhoso do que ele "diz". Ontem pediu-lhe para o pôr no beliche de cima por um bocadinho...hoje reclamou porque foi retirado do computador, sem se despedir da avó como ele gostaria  (já era muito tarde e tinha de ir para a cama). 
Copy paste integral, sem correções ortográficas.

ONTEM
[18-09-2012 18:45:24] JP: quando chegares eu vou pó beliche de cima está bem?
[18-09-2012 18:55:29] JP : não respondes? pai
[18-09-2012 18:58:33] Pai: Ok. Já vou para casa. Beijos
[18-09-2012 19:03:26] JP: está bem

HOJE

[17:23:08] JP: olá :*
[17:29:20] JP: beliche de cima
[17:29:58] Pai: :) ok, mas só um bocadinho pois o pai quer ver o Benfica
[17:39:09] JPa: depois jantar bocadinho :)
[17:39:45] Pai: Depois do jogo do Benfica
[17:41:17] JP: sim
[17:41:31] Pai: Ok
[17:55:40] JP: é que depois quero falar com avó
[18:05:46] Pai: Falas com a avó durante o jogo do Benfica
[18:12:00] JP: ontem não dei uns beijos no fim
[18:12:45] Pai: Tens razão. Não voltará a acontecer :(

Uma ternura. Quando conversa com a avó, diz-lhe que quer saber tudo sobre o trabalho dela.
Tão doce, tão doce…


Sorrir

O JP tem um dos sorrisos mais lindos que já vi. É um sorriso que vem de dentro, mistura de sedução e timidez. O seu sorriso expressa-se através de todo o seu corpo, transmitindo e contagiando de alegria e felicidade. Eu adoraria preservá-lo e esconder-lhe todos os problemas. Mas, infelizmente, não me parece que seja possível. Por isso,  vai largando o sorriso de menino e vai ficando mais crescido.
Este ano letivo ainda não tem auxiliar na sala. Aguardamos a colocação no fim deste mês. Assim, a sua professora vê-se entregue, sozinha, a uma turma de 20 alunos, sendo dois deles dependentes de cadeiras de rodas. O apoio para o JP, neste momento, é apenas nas idas à casa de banho, almoços e lanches. Sendo ele bastante autónomo com o computador, não é trágico mas não é a situação desejável.
Conversei muito com o JP, pedi-lhe que tentasse ser muito paciente quando não estivesse a conseguir fazer algo no computador.
Esperar, pela melhor altura, para pedir ajuda à professora. Tomar a iniciativa e não esperar que  ralhassem para começar a trabalhar. E nestes  primeiros 2 dias, pelo menos resultou. A professora disse-me que tinha crescido muito nas férias. Cresceu sim. E cresceu, nestes últimos dias, ao perceber das dificuldades que passamos para ele ir à escola.
Mantém o sorriso para a sua namorada. A outra menina na cadeira de rodas. O JP sempre foi um menino de muitos afetos. E aquela relação é mais séria que muitas de adultos que por aí vejo.

À Lena, a auxiliar do ano anterior, um beijo e votos de sucesso futuro. Ela fez crescer o meu menino, simplesmente, tratando-o e exigindo dele, como se faz com qualquer outro.
Este ano ainda não sabemos quem cuidará do JP e se tem habilitações e qualificações para isso. Mais uma vez. Em Setembro é sempre assim. Será que sonham que estes meninos não voltam à escola ? Será que pensam que se reabilitam durante as férias e voltam sem necessidades? Porque não é tudo tratado antecipadamente ?
Passar pelas dificuldades e continuar a sorrir, é um dom. Eu esforço-me para que assim seja. Mas a verdade é que a paciência não é ilimitada. E sinto que, cada vez, tenho menos.



segunda-feira, setembro 17, 2012

Quem não quer ter um beliche ?

O JP tinha fascínio por beliches e quando soube que ia ter um mano, tratou logo de imaginar ter um, no quarto. Falava nisso quase todos os dias.
O mano Rafael, nos próximos 4 a 5 anos, não dormirá obviamente nele, mas precisámos de comprar uma nova cama para o JP e escolhemos um beliche ! 
Ontem, mal chegou a casa, quis imediatamente ver o beliche, deitar-se nele e adormeceu cedo, sozinho e tranquilo...no beliche dos seus sonhos.
Já partilha o quarto, com o mano, e adora.
Um dia serão companheiros de beliche.
Só queria que todos os sonhos fossem tão fáceis de concretizar como este.

Da escola

O JP, na sexta feira, teve a apresentação e hoje foi o seu primeiro dia de aulas.
O assunto das auxiliares parece estar tratado até ao fim do mês. 
Pela manhã queria acompanhá-lo no transporte adaptado e verificar que tudo corria bem, mas  fui surpreendida com uma avaria no elevador, aqui no prédio. Ao longo destes 12 anos que aqui vivemos contam-se, pelos dedos de 1 mão (felizmente), as avarias que tivemos. E logo tinha de ser no primeiro dia de aulas do 2º ano !!!  O JP ficou logo mais instável, fizemo-lo descer mas eu não pude acompanhá-lo.
Já não é o primeiro ano. A professora e os colegas já o conhecem, assim como a escola inteira. Creio ter razões para estar muito tranquila e sossegada. Mas não é possível. O meu coração de mãe nunca tem descanso com o JP.  Provavelmente com o Rafael também não terá…
São as minhas crias.


sexta-feira, setembro 14, 2012

Início ano lectivo 2012/2013

Hoje, o primeiro dia de escola do 2º ano. Lá foi todo  contente e termina pelo meio-dia. Foi uma emoção voltar a todas as rotinas e ele estava, genuinamente, feliz.

Ainda não sabemos como será a continuidade da assistência ao JP. Neste momento sabemos que o centro de emprego local apenas mandará as funcionárias no fim de Setembro, à semelhança do que faz todos os anos. 
Mas eu não aceito que o JP perca 15 dias de aulas. Não consigo aceitar.
Nem sequer me parece razoável que isto aconteça se toda a gente sabe que no máximo o início do ano escolar ocorre mais ou menos até dia 15 de Setembro.

Ontem na reunião de pais houve uma grande onda de solidariedade dos restantes pais da turma, que farão pressão junto da direção do agrupamento….
Odeio estes inícios de aulas. É o reviver do "um dia de cada vez", pois nunca sei o que se passa no dia seguinte…
Entretanto fui inscrevê-lo noutro ATL (ainda mais perto da escola). Foi aceite.
Vamos ver se, por estes dias, recebo mais algum SMS.


quarta-feira, setembro 12, 2012

Lá vou eu para a guerra novamente....

A escola não tem funcionários em número suficiente. Por isso o JP não poderá ir à escola que começa já sexta feira.
Nem sequer a unidade de multideficiência que existe na escola (mas que o JP não frequenta), abrirá. Mas e eu sou a única que me passo dos carretos com isto ?

Lá terei que ir para guerra, mas deixa-me triste e ansiosa saber que me resta apenas UM DIA !!!

Deixo aqui o texto do papá Grilinho que deixou no FB dele e que me fez ter consciência que vamos ser uma equipa.


Este, que muitos de vocês já conhecem, é o Pedro. Tem 7 anos e é o meu filho mais velho. Um dos meus tesouros. Como é também do conhecimento de alguns de vós, o Pedro é deficiente motor. Nada disso impede que seja uma criança linda, super-inteligente, astuta, divertida, meiga e extremamente "activa".
Pois, é esta a criança que um novo ATL no Seixal acaba de recusar a inscrição com a desculpa que

"têm falta de meios humanos" para lidar com uma criança como o Pedro. Como se o Pedro passasse o dia a correr de um lado para outro, a fazer tropelias, a desenhar nas paredes ou a bater nos outros meninos... Curiosamente, uma recusa que surgiu depois de, inicialmente, ele ter sido aceite. Até porque uma das responsáveis do ATL conhecia o Pedro da escola. Uma recusa que chegou através de uma SMS fria e seca.

A crise que este país vive começou também aqui, na cabecinha deste tipo de pessoas. E neste sistema podre que permite estas discriminações. Não basta posar para a foto, ao lado dos nossos atletas paraolímpicos. É preciso zelar por estas pessoas, pelo seu bem estar. E é crucial que estes tenham as mesmas oportunidades dos demais. Até porque nunca se sabe se um dia não seremos nós a sentarmo-nos numa daquelas cadeiras…

A insensibilidade das responsáveis deste ATL apenas demonstram que não estão habilitadas para lidar com crianças. Qualquer criança. Muito menos com um filho meu. Portanto, por um lado, ainda bem que mostraram a sua verdadeira face. Torna tudo mais fácil.

Não tenho dúvidas que o Pedro irá encontrar um ATL que o queira receber de braços abertos. Nem que seja preciso ir até ao fim do mundo para o encontrar. Ele sabe os pais que tem. Uns pais que nunca desistem.

P.S.: Como está a ser uma semana em grande, hoje ficámos também a saber que a escola do Pedro está com dificuldades em encontrar assistentes para o Pedro e outros meninos como ele. É bom saber que os meus impostos servem para alguma coisa...para os carros de alta cilindrada dos representantes do Estado :(
Mas, se querem luta, vão tê-la!

Será que falei cedo demais ?

Sexta feira próxima começam as aulas. Aguardo notícias sobre o início do ano lectivo e para já prevejo o quadro muito negro. Pois garanto que não só não desisto, como juro que se for preciso acampo em frente à residência oficial do nosso primeiro ministro (que curiosamente até tem um irmão com paralisia cerebral) só para que sejam dadas igualdades de oportunidades ao JP.
Podem ter a certeza que nas próximas semanas faço escândalo, escrevo novamente ao primeiro ministro, vou à televisão, vou ao parlamento, durmo à porta da escola, faço outra petição, o que for preciso. Viro cromo nacional. É difícil aguentar tudo isto MAS EU AGUENTAREI !
Mas o JP vai ter que ter condições para ir à escola.
Honestamente, tudo isto cansa taaaaaaanto ! 
Ainda hoje saberei como será o transporte também. Espero não ter más notícias.  A sério....esta semana não tem fim ? 

segunda-feira, setembro 10, 2012

Ser mãe de uma criança especial...

é receber uma mensagem no telemóvel, segunda feira, logo pela manhã, a recusar a entrada do menino no ATL. Não fui merecedora sequer de uma chamada.


Tinha sido aceite, mas afinal não foi. 
Quem o conhece sabe que o trabalho não é muito. Desde que tenha o computador com ele, só é preciso  levá-lo à casa de banho (vai pouquíssimas vezes) , ligar o computador e algum cabo que se solte. Ele não corre, não grita, não bate nos outros.
As pessoas conheciam-no e tive esperança. Enganei-me.


Acho que só vai à escola, porque é pública e, por enquanto,  não o podem recusar. 
É o mundo que temos. Tem dias que me apetece desistir de tudo.


quarta-feira, setembro 05, 2012

Das Férias II - O Rafa


Aquisição das férias do Rafael: 2 dentes em baixo e muitos a romper em cima.  
Talvez o canino seja um dos primeiros a romper...
Por isso, muitos dias houve, que este menino (que nem sequer é um grande fã de colo), só encontrasse sossego no colinho da mamã.

Dia 3 de Setembro esteve na pediatra e pesa já 7400 g, mede 71 cm. Tal como o mano, é uma elegância.
Come bem, dorme bem, adora o maninho...e tem sido muito feliz. 



Das férias - I Incidentes infelizes

Como mãe, tenho noção que as minhas palavras têm muito poder e impacto na percepção que os meus filhos terão das suas forças e fraquezas. Tenho plena consciência de que as minhas constatações e atos podem afetar, profundamente, a forma como eles verão o mundo. Tenho, principalmente, cuidado e atenção às conversas com o JP e à forma como o motivo. Terei também a seu tempo, com o Rafael. Mas, sem dúvida, considero o JP, um caso atípico e aquele em que terei refletir mais. Mas não consigo controlar tudo o que lhe dizem. 
Nas aldeias das Beiras, toda a gente olha e mete conversa. Num desses dias, logo após o almoço, vínhamos contentes os quatro, pelas ruelas estreitas e sinuosas, quando fomos abordados por uma senhora, dos seus 50 e poucos anos.
Aproximou-se e disse assim em alto e bom som "Ah, este é que é o menino Doentinho ?". Eu, mãe,  tal, fera ferida, cortei a conversa, antipaticamente. 
Disse "- Não, não, graças a Deus até tem muita saúde. Nasceu foi com uma paralisia cerebral que o impede de andar". 
Arregalei os olhos e continuei "- e mais, é inteligente e percebe TUDO o que lhe dizem"...(para que se calasse de vez).
A senhora continuou :"Não leve a mal. Eu também tenho uma netinha pequena assim" …e a conversa continuou até eu perceber o desconforto do JP. Cortei a conversa e fui embora, sem sossegar a senhora, e com um miúdo, visivelmente, agitado. A senhora não fez por mal. Longe de mim, pensar isso...mas não foi bonito e quase que nos estragou uma tarde.
Quando chegámos a casa, desatou num berreiro, com perguntas, porque tinha paralisia, porque o mano não tinha, o que tinha acontecido....entre berros e choro.
E eu a tentar manter a tranquilidade e calma interior, para transmitir essa serenidade. Abraçava-o e expliquei de modo simples. Mas não foi fácil sossegá-lo. Até porque o pequenino de ouvir o grande a chorar, também chorava.  Depois tivemos uma conversa a quatro, com muitos abraços e beijinhos. Que gostamos muito dele assim como ele era. E não só nós. Que era especial. Nada mais importava. Sossegou. Parece ter esquecido. Mas não esqueceu e há-de voltar. Só espero que faça um esforço para se aceitar, porque nada mais lhe resta, senão confiar nele. Ele realiza tantas coisas, mesmo com as dificuldades motoras que tem...mas há gente que, sem dificuldades algumas, não realizam nada. Tem de aprender a confiar nele. Devagar se vai ao longe e ele trilhará o seu caminho também. 

Outra situação foi  num dia em que o JP decidiu fazer uma birra a entrar para o carro, com muito choro e lágrimas. Típica de quem não consegue comunicar bem e que sente revolta por isso. E uma senhora disse, mesmo em frente a ele " Oh pais, então, têm de ter paciência...esse é assim...o pequenino Rafael é este amor e vai-vos dar muitas alegrias, pelos dois, vão ver". 
Mal humorada arranquei-lhe o Rafael do colo e não disse mais nada, pois era amiga da minha sogra.
Quando chegámos a casa, fartei-me de gozar com a senhora. O JP ria. E quero ensiná-lo a rir destas coisas...no dia seguinte fomos aos cavalos e voltámos a gozar com a senhora e com o que ela disse. O JP soltou gargalhadas boas e com sentido de humor. 

Haja paciência, para ele, para mim...para todos, que há gente burra .



Primeiras férias com o Rafael

Foram as primeiras férias com o nosso Rafael. E férias com um bebé de 6 meses (a iniciar a alimentação sólida) e outro dependente, de 7 anos, ativo e cheio de vontades, são esgotantes. Tentámos não chegar exaustos ao fim de cada dia, mas era difícil e inevitável. Ainda, para mais, temos a mania de "fazer uma vida normal". E uma vida normal para nós é mesmo cansativa. Fizemos 2 viagens, uma para sul, outra para a terra do Papá Grilinho - uma pequena aldeia na Beira Baixa. 
Assim tivemos praia e piscina. Bóias e mergulhos. E também o contacto com o campo e com outras gentes. Podemos dizer que as férias foram deles. Gostaríamos muito de ter tido um tempo para nós. Para estarmos os dois apenas a relaxar e com tempo para namorar, jantar sem papas e sem os bons e maus humores do JP. Porque este miúdo é assim. Bem disposto e divertido mas quando as coisas não correm como quer, um verdadeiro "pica-miolos". Apenas mudámos de ares e já foi ótimo.
O Rafael também começa a mostrar a sua personalidade. Sociável, bem disposto, muito ativo e ávido de aventura. Começou a bater as palminhas no dia que fez 7 meses. Arrasta-se, meio gatinhando, meio rebolando por toda a casa. É fascinado por comandos de TV e telemóveis. 
As pessoas abordam-me na rua para dizer como ele é bonito. E ele ri-se para toda a gente. Acho que a vida lhe sorri muito. Mas eu receio sempre o dia em que isso possa mudar. Não quero que mude. Mas tenho medo. Pavor até.

sábado, julho 28, 2012

Uma nova etapa

Começa nesta mesma semana. 
O recomeço profissional tão ansiado. Na minha área (mais ou menos). 
Pouco ainda sei. Nem sei ainda por quanto tempo. 
E por isso, os ânimos são muito controlados.

Mas é um passo de cada vez.


O JP está bem e orientado. O Rafael também ficará bem...e ainda teremos umas férias pelo caminho.

Que o meu equilíbrio também chegue.


quinta-feira, julho 26, 2012

Mais registos

Dia 24 de Julho foi um dia em cheio. Descoberta do primeiro dente do meu Rafael. A sua segunda ida à praia e primeira vez que ele aguentou sentado imenso tempo. Ainda lhe falta 1 semana para os 6 meses mas já faz tudo o que seria suposto fazer e mais ainda. Já se põe de gatas,  passa objetos de uma mão para a outra, diz "Bá-bá-bá "...  enfim, parece que quer sossegar o meu coraçãozinho sempre, mesmo antes de pensar em me preocupar. Sem dúvida que sei valorizar !
É uma alegria. Felicidade plena.
O JP observa tudo e sorri sempre. Por vezes tenta imitar sem sucesso. Nada diz. Mas nessas alturas o meu coração bate a mil e encolhe-se do tamanho de uma ervilha. Meus Deus...que pensa ele das suas limitações ? Pensa como eu na enorme injustiça ?
Não era assim que eu queria pensar.
Quero libertar-me e pensar de outra maneira (até para a transmitir ao JP) mas não tem sido fácil educar o pensamento.

Voltando aos pensamentos bons. O Rafael lá foi conhecer a sua futura escolinha, (que faremos todos os esforços para que seja a mesma do mano) e fez amizades por lá. Só falta saber quando poderei ter condições para o poder deixar.
Está mais exigente agora que antes. Leite só da maminha. Biberão, nem vê-lo ! Sopa come lindamente e gosta de fruta e papa. Um comilão nato. Tal como o irmão, ficamos a pensar o que é que ele faz à comida, pois é comprido, mas uma elegância.



O JP foi, esta semana, pela primeira vez, para uma colónia de férias. Vêm buscá-lo às 7.30 h e chega pelas 19.30 h ou mais. Praia, piscina, parques infantis, almoços...todo o dia no laréu. Acompanhante só para brincar com ele. Já fez as suas habituais seduções… 
Tem gostado imenso. É um projeto gratuito da C.M. Seixal, com muitos voluntários à mistura e bastante jeito nos tem dado pois não consigo ir com os dois à praia. 

O JP safa-se. Sem falar, diz o que quer, o que precisa, o que gosta e não gosta e quando precisa de ir à casa de banho. Fico contente de ter tido coragem de arriscar e o deixar ir.
Ontem chegou a casa e contou que se tinha divertido muito. Brincou com a Joana e outros amigos e foram à água depois. Ainda contou que viu a namorada na praia.

Esta semi-independência dá-me confiança. A ele acredito que lhe dê uma qualquer sensação de autonomia. 


domingo, julho 22, 2012

A procura do Equilíbrio

Um dos enormes desafios com que me deparei como mãe  tem sido o de conciliar a minha vida e aspirações profissionais com tudo o que quero ser como mamã de 2 meninos (sendo um muito especial).  Ser uma mãe presente, disponível , participativa  está sem dúvida no topo das prioridades da minha vida. E por culpa desta crise prolongada, tive oportunidade de o ser, muito mais nestes últimos 2 anos. Acredito que dei um património emocional diferenciado ao JP a nível de atenção e acompanhamento mas sei que ainda consigo ser melhor mãe (apesar de dar menos atenção) se me sentir mais equilibrada. O exercício de conciliar tudo, apesar de provocar desgaste e stress, é estimulante para mim. 
A maternidade é uma experiência única e irrepetível. No entanto, ficar em casa, dedicada apenas a vivê-la, é algo extremamente difícil para as mentes habituadas aos desafios intelectuais e às interações sociais e ritmos impostos pelo ambiente de trabalho. É uma mudança muito profunda, que se traduz numa infelicidade camuflada nos sorrisos, gargalhadas e beijinhos dos filhos. Tenho noção de que o Rafael ainda é muito pequenino e precisa de mim, mas, por outro lado, sinto que ele adora estar com outros meninos e bebés. É uma intuição fortíssima. Afinal ele é o menino que fica rabugento se não dá os seus passeios rotineiros. 
Para o JP preciso muito de ter uma solução para depois da escola e idas às terapias. 

Apesar das coisas estarem difíceis em território nacional, na minha área de atuação, e não estar ainda a ponderar, a sério, sair do país, quero que no fim neste mês a minha vida se comece a organizar para voltar ao ativo.   

Quero mostrar, principalmente aos meus filhos que, na adversidade, adaptamo-nos e procuramos outros caminhos. Não deixamos de sonhar, acreditar e trabalhar para que as coisas possam melhorar.

terça-feira, julho 10, 2012

Constantes desafios

Obrigado a quem deixa aqui o seu comentário e palavra de atenção, mesmo sem a nossa retribuição. Esperamos, em alguns meses, voltar a ter um pouco mais de tempo.

Temos andado a fazer o treino do Magic Eye, mas também não tem sido fácil. Primeiro estava rápido e sensível demais. À medida que piscava os olhos estava sempre a selecionar coisas e não havia como refrear. Ele queixava-se também que era demasiado rápido. Já ajustámos os parâmetros. Parece melhor, mas o JP queixa-se que o cansa muito. Assim, tentámos uma média de 45 minutos a 1 hora diária, no máximo. Para aguentar mais algum tempo por vezes usamos os dois em simultâneo, mas não tenho a certeza de ser boa ideia.
Tinha esperança que fosse, tirar um sistema, colocar o outro e já está...mas não. Tudo é trabalho, investimento, dedicação. Não há que ter ilusões. É a nossa sina.
Mas só assim, me sinto com a cabeça descansada. Sinto que tenho de fazer tudo para lhe dar as oportunidades que nunca teve, noutras áreas. Assim, pelo menos na escola, poderá ter alguma forma de igualar-se em respostas e rapidez. A partir daí é com ele. Se for trabalhador e interessado acredito que possa haver muita coisa que pode fazer na vida.

Enquanto isso, o pequenino anima os nossos dias com gracinhas. Deita a língua de fora e vê se nos rimos. Se ficamos com uma cara surpreendida, ri-se à gargalhada !!!
Os nossos dias parecem uma loucura de tão preenchidos que são, mas só posso pensar que o Rafael veio encher os nossos dias com muita alegria e que estamos terrivelmente felizes por tê-lo aqui.
Mostra-nos ainda mais a injustiça do mano ter vindo tão diferente. 7 anos depois, mesmo tendo aceite, tanta coisa, e gostando do meu filho como ele é...há coisas que são uma dor constante por dentro.

O JP também era um bebé assim, risonho e bem disposto. Por vezes gostava que tivesse ficado assim para sempre. Todos me dizem que é normal estar mais sério, está a crescer...repito para mim vezes sem conta que sim.  Por vezes, em vez de 7 anos parece ter 14.
Continua a ter um apurado sentido de humor. Terrivelmente gozão. Gosta de novelas em vez de desenhos animados e diz que tem muitas saudades da namorada Soraia. Quer ter um bebé com ela. Adora falar no Skype (ele controla tudo) e também gosta de fazer contas. Quanto maiores, melhores.
Escolhe-me um carro adaptado, para a cadeira dele,  na internet para comprar . Vê nas várias marcas. 
Por outro lado (e com a vinda do mano), ainda quer vir para o nosso colinho, ainda gosta do nosso aconchego e dos passeios em família. 
Protege o mano. Quando o reguila lhe puxa os cabelos, diz sempre que não doeu, só para não lhe ralharmos. Nunca vi nada assim. Eles entendem-se, intuitivamente, sem precisarem de caderno, computador ou falas.

Mail do JP para a mãe dia 18.06.2012 às 15.32 - OS SEUS SONHOS.

"És mais boa e bonita hás vezes má. Quero comprar um carro para min e para a Soraia. O meu carro Toyota 73 js 97. O meu carro vai ser fixe ele vai ser giro e bonito. A Soraia vai dar banho ao bebé na casa de banho. A casa vai ser bonita."

Cópia integral sem correções.

O meu JP sonha. E o meu coração fica, terrivelmente, pequenino quando o "ouço".

terça-feira, julho 03, 2012

5 meses de Rafael


Ontem, o meu mais pequenito completou já 5 meses. Tem sido um bebé fantástico, alegre, sorridente, fã do mano JP. Estes 5 meses passaram a voar.
Com o JP de férias, tudo ainda é mais absorvente e mais rápido. 
Falta-me até 1 minuto livre para vir atualizar o blogue. Falta-me tempo para mim...faltam coisas de que decidi nunca queixar-me. Por outro lado tenho a companhia dos meus meninos, que dão-me a força que preciso para conseguir encaixar tudo. O JP terminou lindamente o ano letivo com Excelentes e Satisfaz Bastante (matemática), o que me deixou muito orgulhosa e  está a fazer o treino do MAGIC EYE em casa.  Depois de 2 dias de euforia (que não queria sair da frente do computador), agora já o quer intervalar com o sistema antigo, pois diz que o cansa. Não é bom sinal, mas esperamos que a tolerância comece a aumentar à medida que treina e torna-se mais eficaz.
O Rafael é um bebé muito precoce. Já rasteja, levanta o rabinho, rebola, percorre a casa assim. Ainda não iniciámos a comida sólida, mas estará para breve. Também já se aguenta imenso tempo de pé. É a sua posição preferida. 
Parece que está nas nossas vidas desde sempre.
E entre os olhos grandes, castanhos e pestanudos do JP, e os vivos, pequeninos e azuis do Rafael,  tenho preenchido os meus dias. Em breve deixarei de estar tão disponível, espero eu. Por isso, agora, aproveito e tento não me queixar.


terça-feira, junho 12, 2012

OS meus filhos são os melhores do mundo

Ser mãe novamente fez-me sentir tudo outra vez. Nasceu em mim, no momento em que o Rafael nasceu, mais uma vez, o amor ilimitado, incondicional e puro. Os meus filhos são para mim, o melhor do mundo e os melhores do mundo. Fazem-me sacrificar de formas que julguei impensáveis. 
O Rafael trouxe muita alegria, a tranquilidade, simpatia. É nosso companheiro. Sinto que nos entendemos de uma forma excecional desde que nasceu. 
Ajudou muito ter 7 anos de experiência em linguagem não verbal. Mas ele também ajuda, com a sua maneira de ser, tão serena e bem-disposta.  A convivência com ele, nestes quatro meses, tem sido, também absorvente, como é,  com qualquer bebé. Mas enriquecedora. Em cada dia ele conquista-nos e marca a sua posição na família. Ainda está a ser amamentado, em exclusividade, e fico muito feliz por estar a conseguir alimentá-lo da melhor forma.

O JP continua igual a ele próprio. Cada vez mais rapazinho. Adora a namorada e os amigos. Trocam bilhetinhos com pedidos de casamento, um para o outro. Fantasiam sobre o futuro. Vai às festas de anos onde é sempre acarinhado e incluído. Os amigos dão a dica à mãe que se pode ir embora. Eles empurram a cadeira, dizem.
Continua a trabalhar muito, fisioterapia, natação, hipoterapia, que são as terapias que mais mostraram resultados, até hoje.  Desistir está fora de questão. Por mais cansaço que haja. Continuamos sempre, mesmo cansados. Sinto que não se porta melhor, porque nem sempre tem todos os meios à sua disposição para se exprimir e como o pensamento dele anda sempre a mil, existem, inevitavelmente, frustrações comunicativas. Confesso que me preocupa não o ver sorrir tanto como antes...mas creio ser por estar mais "homenzinho". No entanto receio que sejam frustrações e  as primeiras revoltas. Espero que esteja enganada.

Ainda um destes dias, disse-me com o caderno de comunicação (era a única coisa que tínhamos perto de nós) que a mamã precisava de tirar leitinho com a bomba, para poder deixar o Rafael também na casa da avó (quando ele também vai). Entre símbolos  e palavras escritas letra a letra. Mas a ideia, que era bastante complexa, passou. 
A construção das frases melhorou muito, desde que entrou para o 1º ano. Fico impressionada com a linguagem que utiliza e não parece normal num miúdo da idade dele. Usa (escreve) termos, como por exemplo,  "faleceu" (sim, infelizmente, continua fascinado com o fenómeno da morte)  e "responsável". 
Sinto muito orgulho nele. É um miúdo que muitas vezes nos cansa (a mim, ao pai, à professora, etc) pela sua persistência e insistência. Mas se não fosse assim, ele seria engolido pelo mundo. Mas ele não é passivo. Ele quer as coisas à maneira dele, ele exige e ele faz acontecer. Claro que o equilíbrio entre as exigências do JP e a nossa sanidade mental, não é fácil de conseguir, mas havemos de encontrá-lo.

Em breve teremos o "Magic-eye" (o software que permite que a sua retina funcione como "rato")  em casa, ele conta os dias para trazê-lo. É muito rápido e eficiente. Tal como ele gosta.


segunda-feira, maio 21, 2012

Tudo acontece por uma boa razão

Eis uma história inspiradora:

Era uma vez um velho que vivia numa aldeia. Este velho tinha um filho que tinha partido para o estrangeiro à procura de uma melhor vida. Os seus vizinhos supunham que o velho ficaria triste com a partida do  filho, mas ele nunca expressava sentimentos de tristeza ou solidão relativamente a essa situação. 
Um belo dia, o filho do velho voltou a casa. Os aldeãos vieram cumprimentá-lo mas ficaram surpreendidos ao constatarem a ausência de emoção perante o acontecimento supostamente feliz. O velho não estava feliz nem infeliz, mas agradeceu-lhes o interesse demonstrado.
Alguns dias depois, o velho saiu para dar um passeio com o seu cavalo, e eis que os arreios se lhe escaparam da mão e o cavalo fugiu, Ao saberem do sucedido, os aldeãos vieram a sua casa para o confortar pela perda do seu belo cavalo. O velho agradeceu, mas uma vez mais não mostrou tristeza.
No dia seguinte, verificaram com surpresa que o cavalo voltara e que trouxera com ele duas magníficas éguas pretas. Desta vez, os aldeãos ainda ficaram mais chocados com a ausência de entusiasmo do velho quando foram ao seu encontro para felicitá-lo. Ele não parecia partilhar a euforia pela boa sorte com que fora abençoado.
Uma semana depois, quando o filho do velho estava a tentar domesticar uma das éguas, caiu, partiu uma perna. Quando os aldeãos foram visitar o rapaz, não conseguiram compreender a razão porque o velho não chorava pelo que sucedera ao filho.
Mais tarde, nesse mesmo dia, o exército local veio à aldeia recrutar todos os jovens saudáveis para uma batalha. Quando chegaram à casa do velho, decidiram não levar o seu filho, porque este tinha a perna partida. Quando os aldeãos vieram felicitar o velho, ele sorriu e , de uma forma singela, disse:
-Tudo o que acontece, acontece sempre por uma boa razão.

Como eu gostaria de moderar as minha emoções e viver com esta sabedoria e serenidade, mas acredito muito que esta é a verdade. 




Contando os dias

Para poder trazer o equipamento de acesso ao computador, por olhar para nossa casa. 
Por agora será ainda cedido pelo hospital até a escola atribuir-lhe um.
Ele já teve treino de acesso por olhar, anteriormente, mas era um outro sistema. 
O varrimento este ano ainda correu muito bem, pois os meninos ainda eram lentos e o JP não se atrasava em relação a eles.
Mas eu acho que sou eu e a professora do ensino especial quem mais precisa da formação e do treino. 
As sessões estão a correr muito bem com o JP. Não vejo que ele necessite de aprender e treinar nada, em especial dado que já no primeiro dia ele fez logo o que pretendia.
O que ele mais gosta de fazer é chegar lá e cuscar no computador, abrindo e fechando janelas, vendo o conteúdo das pastas, acedendo à internet, etc. E tem-se divertido bastante.
Vai ser muito positivo para todos nós.

Estava longe de imaginar

Que no dia que colocava um post sobre conversas, teria de ter uma das mais sérias conversas com o JP, da sua curta vida.
A sua bisavó paterna, com 93 ou 94 anos,  estava gravemente doente, há algum tempo. Ela vivia perto da Serra da Estrela e estivemos, a última vez , com ela há cerca de 1 ano. O JP era muito afeiçoado aquela velhinha. E ela a ele. Quando ia visitá-la, só podia ser ela a dar-lhe colo e comida porque ele não queria mais ninguém.

Soubemos nessa mesma tarde que tinha falecido. Fiquei logo preocupada com a reação do JP.
Mas sabia que não poderia esconder.
Assim que o pai chegou a casa, explicámos-lhe que o papá teria de fazer uma viagem grande, naquele mesmo dia. O JP perguntou se ele ia trabalhar. Dissemos-lhe que não. Teria de ir à terra, despedir-se da avozinha que tinha ido para o céu, para perto do avô. Ela agora estava feliz perto dele, mas nós teremos muitas saudades e é a nós que custa.

O JP chorou muito sentido, muito alto, os berros dele trespassaram o nosso, já ferido,  coração…
Demos-lhe muita oportunidade de conversar. Depois do choro inicial, quis logo dizer, que também queria ir com o pai...queria ver - quero ver, quero ver, quero ver (era só o que dizia)  a bisavó.
Dissemos-lhe que não achávamos que fosse altura, nem lugar para uma criança. Ficaria com a mamã e o Rafael, em casa, e num instante o papá juntar-se-ia a nós. Aceitou com dificuldade. Mas antes do deitar já o notava um pouco mais animado. No dia seguinte não achei que devesse ir à escola. Ficámos todos juntos a brincar. Entretanto passou a lembrar-se muito dela. Diz que está no céu a olhar por nós. E está mesmo.


É pena

às vezes verificar que as pessoas se levam muito a sério, remoendo situações, ficando cheias de sentimentos negativos que transmitem para todos e até para os filhos.

Tento sempre que o JP não seja assim e que o Rafael também não. Nós não damos demasiada importância ao que realmente não tem.
Perdoamos e tentamos não nos encher de quaisquer sentimentos de ofensa. Quem nos aprecia, quem nos quer, realmente aparece, liga, mima e está para nós. Se não quer, também não faz mal. 
Nós nem levamos a mal. Preferimos estar com quem quer. 
Preferimos conviver com pessoas de bom e grande coração. Corações cheio de amor, de entendimento, de perdão.

Há mal entendidos que podem ser tão penosos para nós se os alimentarmos.
Alguém amigo passa por algo assim. Às vezes não conseguimos evitar os mal-entendidos, apenas a forma como reagimos a eles…

Nunca vou esquecer  quando escrevi más coisas neste blogue sobre um pequeno incidente na festa do colégio do JP que há muito apaguei.  Magoou-me, porque estava vulnerável e a seguir eu magoei quem eu gostava e tanto gostava  e acarinhava o JP. Cheguei a pensar mudar de escola, no calor da situação. Depois percebi que tinha sido um tremendo mal-entendido. Na altura pedi desculpa, temendo nunca ser desculpada. Mas sei que fui. A pessoa também me pediu desculpa, mas nunca tinha havido má intenção. Apenas algo normal. E hoje ainda somos grandes amigas…
E estou contente por terem tido esse grande coração. 
Foi o colégio que ajudou o JP a ir a Cuba nas 2 vezes. Sempre tiveram os braços estendidos para nós e lá deixámos muitos amigos. Porque ambas as partes esqueceram os erros e mal entendidos e seguimos em frente, construindo uma relação tão rica. O que tinha perdido se tivesse sido diferente. Como estou contente de ter sido assim. 
Espero conseguir fazer que o JP seja uma pessoa de coração limpo de rancores que não se leve demasiado a sério.

quinta-feira, maio 17, 2012

Conversas

Rafael com 8 meses…
Pouco depois de me saber grávida do Rafael, senti necessidade de falar e explicar-lhe o mundo para onde ele vinha. Ninguém sabe se os fetos ouvem tão cedo e, muito menos, se percebem, mas, instintivamente, eu gostava de o fazer. Às vezes, sozinha, em casa, falava-lhe dos meus sentimentos. Falava do pai, do mano, de mim…
Quando precisava de descansar, dizia "precisamos de descansar". Outras vezes, absorvida pelas rotinas do mano, até me esquecia da gravidez. E abusava um bocadinho…
Por isso, quando podia, dava-lhe a máxima atenção e mimava-o com descanso, tranquilidade e sensações boas.
O JP todas as noites enroscava-se na minha barriga e conversava muito para ele. Vejo agora que se criou um elo especial entre os dois.
Quando o Rafael nasceu, e logo depois daquele choro delicioso que qualquer pai e mãe deseja ouvir, calou-se ao ouvir a minha voz. E eu falava só para o ver tranquilo.
Quando o JP fala com ele, todo o Rafael é gargalhadas.

Tem sido um bebé fantástico, como nunca esperei. Se se exalta, para o acalmar, só preciso de conversar e explicar-lhe o que se passa. Ele não entende, claro, mas de alguma forma, percebe. Percebe, sim.
Encaixou-se lindamente na nossa rotina. Tornou-a mais bonita e colorida. E ele parece adorar este mundo. 

Acho que pelo menos, ele já sabia o que ia encontrar…

As conversas com o JP são igualmente estimulantes. Aproveito por vezes as notícias para lhe chamar a atenção e refletir e ele dá imensa atenção e desenvolve conversa. 
Por vezes até me esqueço que, apesar das suas limitações comunicativas, ele transmite tudo e depressa.
Esta semana deu as notícias à professora ainda antes de eu ter tempo para o fazer. Disse-lhes que ia passar a faltar uma manhã por semana à escola, para ir fazer treino do acesso  ao computador por olhar. 
Eu ainda ia saber a opinião delas…
Mas ele não perdeu tempo.


Para o ano, prevejo um ano letivo, como ambicionei. Em breve teremos o computador em nossa casa. Ele acede com o olhar e será muito mais rápido nas tarefas da escola e nas conversas…
Não é o modo de comunicar que sonhei, mas comunica e diz-nos coisas lindas. 



quarta-feira, maio 02, 2012

O Blogue

Não me lembro de outro ano tão intenso na blogosfera como 2005/2006. Os blogues eram ainda um pouco novidade. E andava toda a gente a aderir.
Eu lia alguns babyblogues. E o JP entretanto nasceu. 
Os primeiros meses foram muito absorventes. Um ano depois, numa busca acerca de tratamentos nos estados unidos (therasuit), conheci uma amiga, pela internet, cujo filho tinha, também, paralisia cerebral. Foi a primeira pessoa com quem falei, na minha situação e foi fantástico perceber que falávamos a mesma linguagem. 
Ela tinha um blogue onde postava os bolos que vendia e, para eu comentar, precisei de aderir ao Blogger.
Foi em Março de 2006. Incrivelmente, já fez 6 anos.
Quando contei ao meu marido (já blogger há 2 anos), ele disse-me para começar a escrever sobre a minha experiência com o JP, já que me queixava que os blogues eram todos cor-de-rosa. Fiquei a pensar que ele tinha razão. Mas se havia pessoas que sabiam dar força e carinho, também havia quem me conseguisse irritar. Era frequente ver comentários sobre o meu blogue do género " fiquei com tanta pena e tão chocada que nem consigo comentar" ou "ainda bem que não foi a mim que me aconteceu isto". Não é simpático, mas como em tudo, absorvi a força positiva e mandei a negativa para trás das costas. Cheguei a ter 300 visitas por dia e mais de 30 comentários por post. E através desses comentários conheci outros blogues do mesmo género que, avidamente, busquei.
Semana, após semana, comecei a receber mails de mães como eu. Com muitas fiz alguma espécie de amizade. Com outras fiz amizades, mesmo fortes, que duram até hoje. E algumas das mães nem sequer eram "especiais". 
E percebi que, de alguma maneira, dava-lhes alguma força ou sensação de não estarem sós. E isso dava-me motivação para escrever. 
Aos poucos iniciaram também blogues (ou retomavam-nos) e contavam também a sua experiência e percebi que, não só tinham imensa força (bem mais do que eu), como também inspiravam-me. Os heróis eram os seus filhos que, facilmente, encantavam-me. 
Não estava, definitivamente, sozinha. Num instante, já nem sequer era das poucas bloggers diferentes. Era só mais uma. E essa foi uma das melhores sensações que tive. 
A blogosfera ficou mais rica de experiências. De pais e mães que mostram as forças e fraquezas. Gente que ensina-nos, partilha e  mostra-nos que o mundo real é bem mais interessante e menos fútil.

6 anos depois, sei que a maioria das pessoas que me vêm ler, conhece ou conheceu o JP e quer saber como estão as coisas. Algumas poderão estar, diretamente, implicadas nas minhas histórias e receio sempre a confusão das palavras…
Um dia percebi que quando contava todas as terapias que fazia com o JP, dava a sensação aos pais de que ele faziam pouco  com os deles (muitas vezes por falta de recursos económicos) e também acabei por me retrair. 
Ultimamente penso muito no dia em que o JP (que já pesquisa na net), venha a ler estas palavras. E dou por mim a ponderar o que escrevo.
Não sei qual o futuro deste espaço. Como sempre, continuo a viver um dia de cada vez. 
Mas gosto muito de ir registando, aqui, alguns dos meus pensamentos. De mostrar o nosso caminho.
Não é definitivamente um caminho tranquilo. Tudo seria muito mais fácil se fosse tudo normal.
Mas não foi e ainda tenho dias em que me doí tudo cá por dentro…

Este blogue é sobre uma família, muito amor,  as suas dificuldades, alegrias, revoltas e vitórias  e sobre o nosso caminho. À nossa caminhada juntaram-se imensas pessoas que trazemos no nosso coração.

sexta-feira, abril 27, 2012

Dias em imagens


Os nossos dias em imagens…

Há três meses atrás tinha este formiga pequenino na minha barriga. Mas parece que ele nem tem saudades.
Adaptou-se, tão bem, ao nosso mundo. Acho que está a achar isto muito mais divertido. 
Passa o dia, entre o rir e o bem-disposto. 
A palavra que as pessoas mais utilizam para descrever o Rafael é "espevitado".
É, de facto, um menino muito desperto para a vida e muito doce. 
Continuamos com a maminha e ele já tem mais 10 cm e mais 2 kgs do que quando nasceu.

O JP  a crescer. Continua a pesar 17 kgs mas já mede 1,25 m. 
Refila, teima, insiste...pica os nossos miolos ! É ativo. Já não se aguenta a ver desenhos animados, há uns anos. Vai para o computador e faz coisas, liga pelo telefone para os amigos, descobre coisas incríveis. 
Os amigos da escola chamam-lhe "craque dos computadores".

O JP sempre foi teimoso, dantes achava que se levava muito bem...mas os tempos mudam.
Os 7 anos mostram-se ainda mais complicados que os 6. São precisos muitos argumentos para o demover. E, na maioria das vezes, acabam por não surtir efeito. Dizem que é normal. E eu espero que sim.




sexta-feira, abril 20, 2012

Triste

Não dá para evitar ficar assim, quando o meu JP diz que quer andar e fazer outras coisas comuns que todos os meninos fazem…
Quando vejo toda a facilidade que o "Formiguinha" pequenito tem em fazer aquisições e verificar que o mais velhinho nunca irá fazer todas...nem metade.

Penso que o mundo é injusto. O JP é apenas uma criança que deveria ter nascido com igualdade de oportunidades…
E eu já devia ter ultrapassado esta forma de pensar. E muitos dias, de facto ultrapassei. Mas outros, dependendo da situação, não consigo deixar de ficar com o coração, terrivelmente, pequenino. Já fizemos tanto e ainda continuamos a fazer, que, por vezes, já não tenho a mesma força anímica para experimentar tudo que é novo, como fazíamos antes. Ele também já tem os seus interesses e já não dá para mantê-lo a fazer fisioterapia e atividades aborrecidas o tempo todo.

O JP tem uma cara linda, um sorriso contagiante e uma consciência que não pára. Mas, por vezes, percebo que algumas pessoas não olham para ele da mesma maneira que olham para o Rafael. Mas, por isso, eu lamento. Lamento que não tenham a riqueza e a sabedoria de encará-lo e descobrir o menino maravilhoso que ele é. Por outro lado, há pessoas que, quando se envolvem com ele, criam ligações emocionais incrivelmente fortes. E  nós agarramo-nos a isso.


O que faço é tentar banir estes pensamentos negros e sentimentos dolorosos e manter a boa disposição e humor...porque a vida é curta e temos mesmo de aceitá-la como ela é, ou corremos o risco de  desperdiçá-la.

Gosto de ser mãe destes dois. O JP moldou-me durante 7 anos e o Rafael veio conhecer alguém muito melhor.
Resta-me preencher os outros vazios da minha vida e serei a pessoa que sempre quis ser.

quarta-feira, abril 18, 2012

Regressões típicas

A última quinzena foi, definitivamente, mais exigente. As férias da Páscoa do JP passadas em casa e o facto do Rafael passar já muitas horas desperto e ansioso por brincadeiras e atenção, exigiu de mim, muita imaginação para contornar os obstáculos do dia a dia.  Mas a prova foi superada (já que não tinha outro remédio) e entretanto o JP já retomou as aulas.
O Rafael é um bebé, extremamente, sorridente. E nisso sai ao mano mais velho. Mas revela-se ainda mais sociável.
As potenciais situações mais stressantes, são as que mais acalmam o Rafael. É quase garantido que se porta bem enquanto passeamos, anda de carro ou acompanha-nos à fisioterapia. Dorme melhor e acorda sem grandes exigências.
Se estiver numa festa repleto de pessoas que lhe querem pegar ao colo, são sorrisos o tempo todo e fica calmo, como nunca visto.
Se fica comigo em casa, começa a querer mais tempo de colo e brincadeiras e chora mais facilmente. 
E por isso, e tudo o resto, tentamos passear bastante.
Já gosta muito de brincar, mexer, interage muito, palra em resposta, grita para chamar a atenção. 
Adormece pelas 22.30 h e acorda pelas 4.30 h para mamar. Adormece novamente e volta a acordar com fome pelas 7.00 h. Não me queixo absolutamente nada das noites, pois não há choros. 

O JP, começa agora a ter as suas crises pessoais pela chegada do mano. 
Quer tomar banho na minúscula banheira do Rafael (que já tinha sido dele), quer mamar na maminha (que nunca quis), põe a chupeta do mano na boca, e ainda se quer enfiar no seu antigo baloiço (onde já nem cabe). Mas adora o mano e tem saudades dele enquanto está na escolinha. 
Tem é saudades de ser bebé…
Nada que não se esperasse, mas, em contrapartida, tem-se portado bem nas aulas e o seu aproveitamento foi entre o Satisfaz Bastante e o Excelentes, o que nos deixou muito felizes. E ainda mais, quando percebemos que a vontade de aprender é grande.  Gosta de fazer contas de cabeça e pergunta-nos, constantemente, sobre o assunto.

Eu cá ando...uns dias a precisar, desesperadamente, de tempo para mim e de melhores visões de futuro, outras deliciada com a minha família, que apesar de me dar dias (demasiado) preenchidos, deixa-me também com o coração cheio.


quinta-feira, março 29, 2012

Quase 2 meses depois


O JP continua enamorado do seu maninho a quem gosta de chamar "Rafa".

Vieram as férias da Páscoa e com elas vieram também insónias noturnas. Acorda pelas 5 da manhã e há sempre algo que lhe tira o sono. Um dia chora porque pensa nas pessoas próximas que podem morrer, outros porque, simplesmente, não tem sono e quer conversa. 
Se me vangloriava porque tenho tido umas noitinhas fantásticas com o pequenino, o mais velho já tratou do assunto. Não é a primeira vez que tem uma fase destas (e por isso não posso atribuir ao nascimento do mano) e espero que vá embora depressa, sob pena de perder, de vez, a minha sanidade mental :P
Ficar com os dois, sozinha,  não é nada fácil. Mas eu não sou de me deixar vencer. Não só fico, como saio com os dois. Uns dias vamos lanchar, outros à fisioterapia. 
Se ficamos em casa, passamos o dia em "mama-dentro-mama-fora" e não se passa mais nada. Assim, é divertido.


Ontem o JP teve consulta de fisiatria e precisei de separar-me, pela primeira vez, do Rafael que ficou com o meu pai, por um par de horas. O JP teve imensos ciúmes. Mas, como esperava, correu tudo bem, incluindo a própria consulta. O Rafael dormiu o tempo todo e quando acordou deu uns sorrisos enormes ao vovô e mostrou-lhe os seus olhos da cor do céu, que só pode ter herdado dele.

Para rir