terça-feira, junho 05, 2007

A infância no princípio do sec. XXI

Gostaria tanto quanto possível que o JP tivesse uma infância parecida com a minha. Inevitavelmente sei que não a terá. Será muito diferente.
O concelho onde morava e ainda moro era arredores longínquos da grande capital. Existiam quintas. Respirava-se ar puro. Ia comprar leite para a família ao final do dia, acabadinho de mugir da vaquinha e levava uma moedinha no bolso. Divertia-me com brinquedos em segunda ou terceira mão dos meus irmãos. Brincava com terra, ia de bicicleta para todo o lado.
Para a escola era a pé, levada pelo avô, só até atravessar a estrada. Depois sozinha ou com coleguinhas. Se chovesse nada se alterava. A pé na mesma. A saltar pocinhas. As doenças curavam-se a maioria espontâneamente. Os Verões eram tórridos e nadávamos em tanques das quintas dos amigos ou íamos de bicicleta para a praia, todo o dia com algumas sanduiches no saco, fruta e sem factor de protecção solar.

Agora estamos dentro da grande capital. Tudo se pega. Bairros intermináveis, surgindo a cada instante. Para ver vacas temos de ir a uma quinta pedagógica. Para ir à praia levamos carro e não temos onde estacionar. Mas moro a menos de 2 kms do sítio onde sempre morei...

Não me imagino com tempo para levar o JP a pé para a escola. E moramos mais perto do seu colégio do que eu morava da minha escolinha primária. Adoro vestir-lhe roupas bonitas. Leio em revistas as classificações pedagógicas dos brinquedos. Escolhi criteriosamente a cadeirinha mais segura para o carro. Eu nunca usei uma...
Gosto de beneficiar da múltipla hipótese de escolha da zona de Lisboa e ir ver um teatrinho ou concerto para bebés...

E fico a pensar...como podia a infância dele ser parecida com a minha ? Que gosto terá? Conseguirei algum dia deixá-lo a brincar sem vigilância na rua ? Conseguirei ter uma atitude descontraída como a que os meus pais tinham ?

Em criança eu seria como uma roseira que floresce e lançava o meu perfume no ar, nunca me tendo preocupado se alguém o ia cheirar ou não. E assim era 100 % feliz.

Hoje penso, se conseguiria voltar àquele mundo tão simples ? E o JP, sentir-se-á tão leve e desprendido, como eu me senti? Será que actualmente conseguiria viver em harmonia no Portugal daqueles tempos? Porque será que quando nos tornamos adultos precisamos de tanto, para nos sentirmos felizes ? E porque nos tornamos tão exigentes, esquecendo o essencial ?

8 comentários:

paidopedro disse...

óptima reflexão. este país realmente mudou muito e a simplicidade e até a liberdade que tivemos nas nossas infâncias não seriam possíveis nos dias de hoje. o mundo está mais complexo. ainda bem que não perdeste de vista o essencial, que afinal é tão pouco... acho que os nossos filhos nos ajudam a distinguir aquilo que realmente tem interesse daquilo que é supérfluo.

1 beijo

Smas disse...

TEnho pensado tanto na minha infância nos últimos tempos e este post é muito parecido emtermos da liberdade com um que tenho em draft mas que não está como eu quero e a inspiração ultimamente não abunda.
Os tempos evoluem e as exigências são cada vez maiores, mas acho que também conseguimos ser felizes e fazer os nossos filhos felizes!
Bjs

Luisa Rey disse...

pierdo el tiempo pensando en lo esencial
que a veces dejo pasar.
¡cuántos instantes he ignorado ya
capaces de haberme cambiado!

Estas palavras fazem parte de uma musica com muita importancia para mim e que traduzem a forma como me sinto e pelos vistos como te sentes......o que está escrito neste post podia seguramente ser escrito por mim.

Beijinhos
Luísa Rey

Vanessa disse...

Também eu noto diferenças grandes desde a minha infância até hoje.
Lembro-me que no Verão ficavamos a brincar na rua até à meia-noite sem termos de nos preocupar com nada. Não havia tanta violência e as próprias brincadeiras eram mais simples e mais criativas. Quando não havia um determinado brinquedo, arranjava-se forma de o fazer. Os jogos de rua eram uma coisa fantástica. Como tenho saudades desse tempo.
Gostava muito que o Guilherme passasse por essa época.
No que toca aos brinquedos,a cho que hoje não estimulam a criatividade de ninguém. Poderão estimular o cérebro, mas por outro lado torna as crianças mais individualistas e muitas vezes egoístas. ESpero conseguir incutir bons valores ao meu filho. Assim como todas as mães da nossa geração.
Beijo grande

patricia disse...

No chamado "nosso tempo" as coisas eram tão mais simples...e tenho muita pena que um dia os meus filhos não possam ter as mesmas vivências que ei tive...mas é a vida...ou os tempos modernos como lhes chamam..
Um bj enorme
Tixa

MC disse...

Lembro-me de um local onde morei (e que ainda adoro) ter uma torneira daquelas de ferro, espetada numa zona de terra batida. Apenas isso ... onde hoje há esplanadas, uma piscina .. um hotel.

Apesar de tudo, apesar de concordar em absoluto com o que dizes ... estou convencida (ainda) que a leveza e desprendimento são a essência da infância, se esta é vivida com amor.

Um dia o teu JP vai ter certamente muito boas recordações e, se calhar, daqui a trinta anos está a escrever ou a pensar algo parecido :)

Um beijinho

Mocas

GE disse...

Que bons tempos, tenho imensas saudades desse tipo de vida. Hoje é dia os nossos petizes gostam mais de ver tv, jogar playstations e outras coisas do genero. Eu vou ver se agora qd mudar de casa, para um aldeia, consigo por no Pedro esses hábitos de andar na rua, saltar, subir ás arvores ( acho que ainda me vou arrepender de dizer isto, eh eh eh)

Bjinhos e bom feriado!

docinho disse...

Li cada palavra e dei por mim a pensar tanto nisso... não asci perto do campo... mas ia a pé para a escola... brincava na rua... hoje... isso parece-me tão assustador : (

Beijos alguns anos depois