sexta-feira, outubro 21, 2011

Reflexões (quase) 7 anos depois

As oficinas que estou a frequentar do Pais-em-rede "obrigam-nos" a reflectir durante 15 dias sobre alguns temas que escolhemos. Nada mais posso dizer pois tudo o lá se passa é confidencial.
Na verdade estou a gostar, pois gosto bastante de reflectir e fazer esse exercício de memória relativamente aos 6 (quase 7) anos que já passaram.
Às vezes abrem a porta para que me apeteça divagar aqui sobre "temas antigos". Alguns que já deixei de falar, porque os sentimentos estão mais definidos e apaziguados.

Hoje tenho uma visão muito mais clara sobre o impacto da deficiência do meu filho na minha vida. 
Sei que tudo tem 2 gumes. Tenho-me concentrado principalmente em extrair tudo o que de positivo consigo.
Mas não é possível ignorar os sentimentos menos positivos que vieram para a minha vida. O conhecimento do sofrimento que desconhecia. O sofrimento por amor. Não sabia o que era sofrer por amar alguém e temer por ela e pelo seu futuro. 
O que a sociedade,  por vezes, me fez sentir. Sentir que não contavam comigo. 
Que as coisas não estão preparadas para o meu filho.
Dor, dor, dor. E por vezes, alguma sensação de solidão. De achar que é só comigo.
E são sentimentos que o tempo não leva. Eles permanecem e sempre aparecem ocasionalmente.

Mas tal como o jornal da noite sempre abre com notícias catastróficas, também nós, temos tendência a valorizar o negativo.
O facto é que o meu filho trouxe-me uma sabedoria, um saber aproveitar a vida e saborear cada dia, ensinou-me a ser selectiva e inteligente nas emoções (se bem que às vezes elas se descontrolam totalmente), e acredito que me tornou numa pessoa muito melhor. 
Cada vez valorizo menos o material e enalteço o espiritual. Dá jeito nos dias que correm.
Abençoo a forte relação familiar que temos, revivo os tempos antigos com saudade, delicio-me com os presentes. Sofro genuinamente muito mais pelos outros que antes, mas sinto-me feliz de ser assim. 
É uma vida repleta de emoções. Uma vida que tem um sabor diferente. Mas tem mais sabores.
E aquelas pessoas que nós conhecemos entretanto e outras que re-descobrimos, as pessoas verdadeiramente boas (nada complicadas), fazem-nos hoje companhia e fazem-nos sentir maravilhosamente.  
As outras ficaram algures pelo caminho e por mais mágoa que a situação possa deixar, ainda bem que estão longe. Tenho estado melhor agora.
Às vezes apetece-me ser mesmo mázinha quando chamam "coitadinho" ao meu filho. Coitadinhas são as pessoas que o vêm assim. Ele não é coitadinho. Tem um pai e uma mãe que o amam. É feliz. Tem comida na mesa, aprende, tem amigos,  contribui. 
Coitadinhas são as pessoas que se lhes acontecesse algo assim na vida, nunca saberiam voltar a erguer a cabeça.

9 comentários:

Helena Barreta disse...

Infelizmente conheço o sofrimento, a dor e o medo do futuro por amor. Mas depois os dias vão passando, o mundo não parou para chorar connosco e a vida continua. E hoje, passados 17 meses desde aquele dia em que morri por amor, posso abraçá-lo e dizer-lhe o quanto o amo.

Não me canso de valorizar a vida, a família e os afectos, isso sim vale a pena.

É isso mesmo, qual "coitadinho" qual quê.

Beijinhos

Grilinha disse...

Nem mais, Helena....percebo bem que falamos a mesma "linguagem". Um beijinho grande.

Mocas disse...

muito bonito e muito verdadeiro. há alguns anos diria que o sofrimento não nos leva a lado algum. hoje e embora não tenha vivido uma dor como a tua, poderia dizer que tenho sentimentos parecidos para com a vida e os outros,alguns até que ficaram pelo caminho. mil beijinhos

Cristina G. disse...

Que bom que é encontrar pessoas assim que falam a mesma língua que eu, as vezes sinto-me estupidamente estúpida quando falo com amigas que tiveram os seu bebes "normais", e sinto-me "estupidamente estúpida" por perceber que o meu nível de evolução já não me permite acompanha-las porque sim estou muito mais á frente. E com isto não quero dizer que sou mais do que elas mas simplesmente sou diferente porque a vida assim me tornou...especial e que bom que é ser assim porque a vida ganha logo outro sentido e como tu mesma dizes, tudo tem mais sabor.
Um beijinho grande pra voçês :)

Mina disse...

Ignorantes e coitadinhos, são aqueles para quem uma "unha partida" é o fim do mundo.
Serão eternamente fúteis e nunca saberão o que é amor incondicional.
A angústia vai ser algo que não abandonará os pais de meninos especiais, por não ter-mos uma sociedade que não os veja como coitadinhos. Enquanto tiverem o amor dos progenitores , serão mais felezes que muitos outros que mais valorizam a parte material...
Bjinhos grandes para os Grilinhos de estimação

Grilinha disse...

Sim, Mocas, os sentimentos de dor não têm de ter a mesma origem, nem a mesma intensidade, para que possamos passar a valorizar mais as coisas simples e perceber que algo em nós, mudou...um abraço grande em ti.

Cristina G....exacto...não é questão de ser superior...eu percebo. Mas intimamente sentimo-nos como "conhecedoras" de uma realidade e de uma razão diferente. E essa é daquelas coisas que não são negativas.. A dor é, a sabedoria que daí advém, não. Beijinhos especiais.

Mina, A angústia e uma panóplia de sentimentos...positivos e negativos, vai andar sempre connosco. Acho que é aceitar isso e não ter ilusões.
Agarrarmo-nos aos positivos é a nossa tábua de salvação.... Beijinhos grandes

ClaudiaMG disse...

É normal que os sentimentos continuem a aparecer, até porque todas nós sabemos que não é fácil lidar com nenhuma das nossas situações. Não nascemos ensinados, nem estavamos preparadas para o que nos aconteceu, mas o importante é que nos munimos de armas e fomos à luta pelo bem dos nossos filhos e filhas.
Faz parte volta e meia sermos assoladas por determinados sentimentos, mas também faz parte falarmos deles, pois todas nós sabemos que eles existem e nao desaparecem por si só.
Falar com pessoas que estão em iguais circustâncias que nós é bem mais fácil, pois essas compreendem-nos, percebem os nossos receios e aflições, os nossos problemas e questões.
Eu estou como a Cristina, já deixei de falar com pessoas que não me compreendem. Claro que sei que os nossos problemas são os nossos problemas e o que para nós não é para outros poderão ser, mas sinceramente será que algumas pesssoas não têm olhos na cara para ver quem está do outro lado. Será que temos de levar com as ignorantes a dizerem, como já muitas vezes me disseram, "tu não sabes como é.....quando estão a falar de uma simples constipação ou então porque o filho dormiu mal uma noite, ou porque espirrou vezes sem conta.....sinceramente não tenho paciência, pois sei como isso é e muito mais.

Desculpa o desabafo, mas certas conversas deixam-se assim....hehehhehe

Beijinhos

Grilinha disse...

Claúdia, é mesmo. Eu entendo. Não peças desculpa pelo desabafo. A reacção por aqui é parecida. Beijinhos grandes.

ana disse...

è impressionante como não conhecendo ninguém autora destes comentários, tudo o oque dizem é igual ao que sinto.
Costumo dizer aos diversos´profissionais que passam plea vida da minha filha que é muito fácil perceber os Pais....somos muito parecidos. Une-nos um passado onde desde o 1º dia equacionamos e preparamos o futuro, temos missões que muitos acham impossíveis, vivemos numa esperança desenfreada mas realista.

Acho que nem queremos muito que nos ajudem mas pelo menos que não nos atrapalhem!!!!!!!!!!!!!

" mundo não parou para chorar connosco e a vida continua" - fantástica frase, nós também não paramos.

Abraço-vos